Nascer em Portugal

Nascer em Portugal já não é o que era. Temos menos filhos e cada vez mais tarde. Porquê? O que influencia a nossa decisão de sermos mães ou pais? Fomos à procura das pistas, partindo do Inquérito à Fecundidade 2013, realizado numa parceria entre o Instituto Nacional de Estatística e a Fundação Francisco Manuel dos Santos.

1960

24.1

nascimentos por
1.000 habitantes

Cada vez menos?

Nunca, como hoje, se nasceu tão pouco em Portugal.
O país tem um dos mais baixos níveis de fecundidade da Europa e do mundo.

Em cerca de cinco décadas o número de nascimentos em Portugal caiu para menos de metade. No início dos anos sessenta, havia mais de 200 mil nascimentos por ano no país. Actualmente, esse número é inferior a 90 mil. A tendência de declínio dos nascimentos não é nova, como se vê, mas nos anos recentes adquiriu uma intensidade reforçada.

Em 1982, o número médio de filhos por mulher caiu abaixo de 2,1, considerado o limite da substituição de gerações.
Na década seguinte, em 1994, esse indicador ficou, pela primeira vez, abaixo de 1,5 filhos por mulher, valor que é considerado crítico para a sustentabilidade de qualquer população, inviabilizando uma recuperação das gerações no futuro se tal nível se mantiver durante um longo período.

Para além de termos menos filhos, somos mães e pais cada vez mais tarde. Agora, as mulheres têm, em média, o primeiro filho aos 30 anos, quatro anos e meio mais tarde do que acontecia há apenas duas décadas. Esta maternidade mais tardia, ou adiada, aproxima o momento em que as mães têm o primeiro filho do seu limite biológico de fertilidade diminuindo, deste modo, a probabilidade de terem muitos filhos.

Que motivações e vontades pessoais têm determinado estas tendências?
Que forças e mudanças sociais e económicas estão a contribuir para que nasçam cada vez menos bebés?

É frequente associar-se o adiamento da maternidade e paternidade ao período de crise económica e financeira. E, na realidade, os dados revelam que esse é um factor a ter em conta, se observarmos o que que passou na década de 2010 nos países mais fustigados pela crise e pela recessão económica, sobretudo no Sul da Europa.

Em Portugal, como consequência da instabilidade social, dos elevados níveis de desemprego, da emigração ou por outras razões, alguns casais ou indivíduos travaram ou adiaram o nascimento dos filhos. Mas essa é uma explicação redutora porque a crise económica não é a razão de tudo. Senão, como se compreenderia que o declínio da natalidade se mantenha ao longo das últimas décadas, atravessando também períodos de prosperidade, crescimento económico e quase pleno emprego?

Para esta tendência de mais longo prazo são avançados com frequência argumentos de índole diversa, numa tentativa de a explicar:

  • A carreira profissional passou a ser um projecto essencial para as mulheres
  • Os estudos prolongam-se e a transição para a vida adulta acontece mais tarde
  • Os casais querem antes viajar, gozar, estabelecer uma carreira, e só depois pensam em filhos
  • Eles e elas têm, em geral, receio do futuro (mais do que no passado) e por isso evitam tomar decisões que os prendam eternamente
  • O Estado não concede apoios e subsídios suficientes, nem durante tempo suficiente, para incentivar que se tenha mais filhos
  • Não há número suficiente de empregos em part-time que possibilite uma melhor articulação de tempos entre o trabalho e a família
  • As mulheres e homens não querem "hipotecar" a sua vida muito cedo com o nascimento de um filho
  • Os filhos exigem uma grande disponibilidade, em especial das mães

E outros argumentos podiam aqui alinhar-se, tão legítimos como estes. Mas o melhor é percorrermos alguns factos sobre a razão das decisões individuais de ter ou não ter filhos.
O Inquérito à Fecundidade de 2013, feito às mulheres com idades entre os 18 e 49 anos e aos homens com idades entre os 18 e 54 anos, é essencial como ponto de partida para esse conhecimento e para um debate informado sobre as grandes forças da natalidade.

Maria João Valente Rosa

Coordenadora da área da População da FFMS

O que explica o que aconteceu na Europa e em Portugal é o desenvolvimento
Maria João Valente Rosa

Um assunto muito sério

Num mundo em franco crescimento demográfico, a população da Europa aumenta de forma tímida, perdendo o seu protagonismo relativo mundial, e está profundamente envelhecida. A evolução demográfica na Europa e, naturalmente, em Portugal, não tem passado despercebida, apresentando amplos e importantes impactos sociais e económicos

  1. A quebra nos nascimentos pode comprometer o aumento ou mesmo a manutenção da população, ao morrerem mais pessoas do que as que nascem.
  2. A quebra dos nascimentos faz diminuir o número de jovens o que, associado ao aumento da esperança de vida, provoca o envelhecimento da população.
  3. Uma população mais envelhecida coloca desafios enormes à sociedade, nomeadamente à sustentabilidade financeira dos sistemas de segurança social baseados na fórmula de repartição para financiamento das reformas, com cada vez menos pessoas em idade activa a contribuir para um número maior de pensionistas reformados.

Ter ou não ter?

É muitas vezes uma batalha entre o querer e o poder, entre a realização pessoal e a responsabilidade. De um lado, as motivações individuais que nos levam a querer ter filhos. Do outro, os constrangimentos, essencialmente financeiros.
População em Idade Fértil
tem filhos
tem filhos e não pensa vir a ter mais
não tem filhos nem quer ter
não tem filhos mas quer ter

Mas, afinal, o que é que motiva a decisão e a vontade de não ter filhos ou, para os que já têm, não ter mais filhos?

As barreiras económicas e laborais são as mais referidas como factor importante, mas logo depois aparecem as motivações pessoais.

Os custos financeiros associados às crianças são a causa mais importante, apontada por cerca de 67% das pessoas que não têm filhos, sem diferença relevante entre homens e mulheres. Logo depois aparece, como motivo importante para não ter filhos, a dificuldade em conseguir um emprego. Esta causa é mais relevante para os homens (59%) do que para as mulheres (48%). Como vemos noutro capítulo, a noção de que o trabalho fora de casa - e o rendimento da família que lhe está associado - cabe sobretudo ao homem é uma opinião partilhada por homens e mulheres.

Depois dos constrangimentos económicos, aparecem os motivos considerados mais hedonistas: não querer ter a responsabilidade de ter filhos e o facto de sobrar menos tempo para outras coisas importantes na vida. Há também referências importantes à dificuldade de conciliar a vida familiar com a vida profissional (mais referida no caso de pessoas que já têm filhos, e por isso já experienciaram essas dificuldades, e não pretendem ter mais) e aos problemas e complicações associados à educação das crianças.
No caso específico de quem já é pai ou mãe, o facto de considerarem ter já o número de filhos que pretendem, aparece como o segundo motivo referido para não se alargar a família, logo após os custos financeiros. É isso mesmo que respondem três quartos dos inquiridos.

Maria Filomena Mendes

Coordenadora do estudo “Determinantes da Fecundidade”

A população está dividida entre quem tem os filhos que quer e não quer ter mais, e quem não tendo quer vir a ter e quem tem e quer ter mais
Maria Filomena Mendes

Mas há também o reverso da medalha. Se estas são as causas invocadas para não ter de todo ou não ter mais filhos, então quais são as principais motivações para os ter?
Aqui três razões ganham particular relevo, e ainda mais evidentes entre quem não tem filhos: ver os filhos crescer e desenvolverem-se, realização pessoal e ver a família aumentar.

Fazer a vontade ao outro - leia-se, ao cônjuge ou companheiro(a) - é também uma motivação forte, mas muito mais em casos em que já há filhos.

Ter filhos também pode acontecer para se tentar fortalecer a relação do casal e são eles, os homens, quem mais valoriza essa motivação. A diminuição da possibilidade de solidão na velhice também é referida de forma expressiva (na casa dos 40%).

Com um nível aproximado, aparece a velha questão do género dos filhos, aqui no caso de quem já é pai ou mãe: ir à procura do filho ou da filha que (ainda) não se tem. Mas não se pense que a decisão é sempre tomada apenas dentro do casal. Para cerca de 20% das pessoas, a influência de amigos e familiares é apontada como um factor importante quando se parte para aumentar a família.

Arraste para a esquerda

Teresa e Bernardo

22 e 24 anos Namorados
Eu sempre quis ter filhos. Quando era mais nova dizia que queria ter 10 filhos, depois comecei a crescer e quis ter 4, agora quero ter 3.
Mas acho que só vou ter 2

Sofia e Eurico

36 e 35 anos Esperam o 1º filho
A razão de muita gente ser pai acima dos 30? Eu durante muito tempo apostei na minha carreira

Ricardo

42 anos Divorciado, 1 filha e reconstituiu família
A natalidade baixou muito em Portugal, precisamente porque o mundo mudou, as exigências mudaram

A importância da família de origem

As razões que influenciam a nossa de decisão de ter filhos são muitas e muito variadas. E o contexto familiar onde nascemos é mais um deles.

A dimensão da família de origem, o nível de escolaridade da mãe e os ideais de parentalidade pesam nas decisões e concretização dos nossos projectos de parentalidade.

Os resultados obtidos no Inquérito à Fecundidade de 2013 revelam que os que são originários de agregados familiares mais alargados, ou seja, que têm ou tiveram um maior número de irmãos, os mais propensos a terem o segundo filho mais rapidamente e a constituírem famílias mais numerosas - embora a noção de “família numerosa” tenha hoje uma expressão numérica mais baixa do que tinha há décadas: para quem tem menos de 30 anos, ter uma família alargada significa ter pelo menos dois irmãos, enquanto para as gerações mais velhas significa ter três ou mais irmãos.

Ainda relativamente à família de origem, as pessoas cujas mães têm ensino superior apresentam mais possibilidades de esperar ter mais um filho do que aqueles cujas mães têm um nível de escolaridade mais baixo.
O número de irmãos de cada um pode aumentar ou diminuir as probabilidades de desejar ter uma família de maior dimensão. Por exemplo, as pessoas com dois ou mais irmãos são aquelas que mais cedo decidem passar do segundo para o terceiro filho.

Outro factor importante que condiciona o momento em que somos pais e mães e a dimensão das famílias que constituímos é a idade em que cada um de nós coabita pela primeira vez com um(a) companheiro(a), bem como a idade em que apareceu o primeiro emprego remunerado. Em ambos os casos, quanto mais cedo acontece maior é a probabilidade de terem mais filhos e mais precocemente.

Arraste para a esquerda

Raquel

33 anos Casada, não quer ter filhos
A mulher dizer ‘não quero’ é ainda tabu, isso não existe no ritmo natural das coisas

Ester, Maria e Catarina

90, 69 e 43 anos Avó, mãe, filha
A minha filha nasceu quando eu tinha 37 anos, mas eu desejei ser mãe muito mais cedo

Qual a conta certa?

Tão fundamental como saber quem e porquê se decide ter filhos, é perceber o número de filhos que se ambiciona ter. E aqui encontramos, talvez, uma das respostas mais transversais a todos.
Quantos filhos tem ou espera vir a ter ao todo?
8%

Não espera ter filhos

25%

Espera ter 1 Filho

51%

Espera ter 2 Filhos

16%

Espera ter 3 ou mais filhos

Independentemente das situações familiares, laborais e socioeconómicas, do género, da idade ou do nível de qualificações, quando se pergunta quantos filhos espera ter até ao final da idade reprodutiva, a maioria responde “dois”. Ter dois filhos é a fecundidade esperada para 51% dos portugueses.

São poucas as excepções a esta resposta dominante e a mais relevante vem dos que têm enteados - fruto, na maior parte dos casos, de famílias reconstituídas depois de divórcios ou de separações -, para quem o desejo mais referido aponta para um filho (41%, contra 31% que continuam a preferir ter dois filhos).

Quanto à ideia do filho único ela agrada a um quarto das pessoas e também está distribuída de modo uniforme entre homens e mulheres, com mais ou menos escolaridade, vivendo em regiões com mais ou menos população.

As opções mais extremas são, naturalmente, as que recolhem menos opções. Mas, ainda assim, são mais os que esperam ter três filhos (12%) ou acima disso (3%) do que aqueles que esperam não ter nenhum (8%). Entre estes, que perspectivam não ter descendentes, há uma predominância maior dos que não têm cônjuge ou companheiro(a) ou que nunca tiveram qualquer experiência de conjugalidade.

Arraste para a esquerda

Alexandra e Miguel

42 e 35 anos 4 filhos
O tempo de família é cada vez mais reduzido e isso influencia a decisão de ter filhos

Andreia e David

28 anos 1 filha, querem ter mais
Gostava de ter mais dois filhos porque foi a experiência que eu tive em casa

Ricardo

42 anos Divorciado, 1 filha e reconstituiu família
Eu gostava de ter tido mais filhos, mas a vida não permite

Sofia e Eurico

36 e 35 anos Esperam o 1º filho
Tanto eu como o Eurico temos irmãos, sempre foi certo que não teríamos só um

Uma nota relevante também para os que respondem esperar ter quatro ou mais filhos. Há, neste caso, um peso maior das pessoas com baixo nível de escolaridade: cerca de 10% dos residentes em Portugal que têm habilitações até ao 1º ciclo.

Estas são as expectativas sobre o número total de filhos que cada um espera vir a ter. Partindo daqui e do número de descendentes que cada um já tem coloca-se então a questão: espera vir a ter filhos, ou mais filhos?

Aqui foi-se à procura da fecundidade intencional, ou seja, das intenções futuras de ter (mais) filhos.

Mais de metade da população (55%) considera que já não vai ter mais bebés. Depois, as expectativas equivalem-se entre quem espera vir a ter um, ou mais um (no caso de ser já pai ou mãe), ou dois, com cerca de 20% a dizerem que estão em cada um desses dois grupos. É muito residual o número dos que esperam ter ainda três ou mais descendentes.

Número Médio de filhos Esperado
Número Médio de filhos que tem
0 Filhos 1 Filho 2 Filhos 3 ou + Filhos

Do primeiro para o segundo filho

O que é que faz com que, já estreados na parentalidade e, portanto, com o essencial da realização pessoal que daí advém já satisfeito, cada vez menos pessoas repitam a experiência e passem ao segundo bebé?

Se os números nos dizem que “apenas" 8% dos adultos tencionam não ter qualquer filho e se a média de descendentes por mulher cai há décadas, então a lógica parece ser simples: o problema está mais no número de filhos que temos do que na questão binária inicial do ter ou não filhos.

Daí que um ponto essencial de estudo esteja nas motivações e obstáculos que possam existir na passagem do primeiro para o segundo filho.

A evolução não é de agora. Até meados do século passado o modelo dominante era o de famílias numerosas, com três ou mais filhos. A partir daí, um conjunto de evoluções sociais, económicas, políticas e culturais provocaram num novo padrão, o de famílias com dois filhos. A chegada do primeiro filho foi acontecendo cada vez mais tarde na vida de cada um. E isso leva ao adiamento da chegada de outros que, em cada vez mais casos, nem chegam a aparecer.

Tendo em conta que a idade média das mulheres ao nascimento do primeiro filho em Portugal, em 2014, foi 30,0 anos e que a idade média das mulheres ao nascimento de um filho foi de 31,5 anos, esta diferença mínima indicia que existem poucos que prosseguem para o segundo filho. Torna-se, por isso, ainda mais relevante compreender quais as principais diferenças entre os que se iniciaram na parentalidade e os que, em seguida, transitaram para o segundo filho.

Maria João Valente Rosa

Coordenadora da área da População da FFMS

Em Portugal o problema não está na passagem do não ter filhos para ter um filho, mas na passagem de ter um filho para o segundo filho
Maria João Valente Rosa

O que ficamos a saber? Que são as mulheres que avançam para o segundo filho mais cedo (até aos 35 anos), enquanto no caso dos homens a idade média é de 37 anos; que são as gerações mais novas (nascidas após o 25 de Abril de 1974) que mais tarde transitam para o segundo filho; que as pessoas com ensino superior adiam por mais tempo o nascimento do segundo filho; que aqueles cujos pai ou mãe têm um nível de instrução mais baixo, têm um segundo filho mais cedo; que aqueles que têm dois ou mais irmãos têm o seu segundo filho mais cedo que os que provêm de famílias mais pequenas e tiveram, no máximo, um irmão.

Também a excessiva dedicação do pai à actividade profissional poderá tornar-se um obstáculo à transição para se ter o segundo filho, ou seja, esta decisão parece estar também condicionada à possibilidade de uma maior presença do pai junto dos filhos pequenos e à partilha com a mãe das responsabilidades domésticas e familiares.

São também identificados os chamados factores potenciadores, que são aqueles que podem propiciar que a passagem do primeiro para o primeiro filho aconteça mais cedo. À cabeça aparece a vontade de ter mais de dois filhos. Mas o facto de os progenitores terem tido dois ou mais irmãos e a concordância sobre a importância da presença materna na vida de uma criança até à idade escolar também são considerados indiciadores de uma maior propensão para que se deixe mais cedo a condição de ter um filho único.

Estudar é adiar?

Quando se vai à procura de características que distingam quem tem filhos de quem não os tem, o nível de escolaridade é dos factores onde há maiores diferenças entre os universos.
Idade ao nascimento do primeiro filho por níveis de escolaridade
27 anos
24 anos
29 anos
27 anos
32 anos
30 anos
Homens Mulheres

Tanto os homens como as mulheres com níveis de qualificação superior têm, em média, menos de um filho enquanto os que têm qualificações mais baixas têm, em média, mais de um filho.

É expressivo que, das mulheres sem filhos que têm entre 18 e 39 anos, três em cada quatro (76%) possuem, pelo menos, o ensino secundário completo. E que, no mesmo grupo, 35% alcançaram pelo menos a licenciatura. A comparação com as mulheres que têm filhos é significativa: 48% completaram, pelo menos, o secundário e 23% têm uma licenciatura ou grau superior de habilitações.

Filhos segundo o nível de escolaridade
Homens
Com Filhos
17% 22% 23% 21% 17%
Sem Filhos
20% 38% 27% 7% 8%
Mulheres
Com Filhos
23% 25% 25% 15% 12%
Sem Filhos
35% 40% 17% 5% 3%
Ens. Superior Ens. Secundário 3º Ciclo 2º Ciclo 1º Ciclo ou inferior

Encontra-se o mesmo padrão nos homens, mas de forma menos acentuada. Para o universo da população residente em Portugal é seguro concluir que a opção por não ter filhos ou o adiamento da parentalidade verifica-se mais nos segmentos com os níveis mais elevados de habilitações académicas.

No entanto, são os mais qualificados (tanto homens como mulheres) aqueles que desejam, no futuro, ter mais filhos. Isso indicia que em vez de uma opção de ter ou não ter (mais) descendentes, estamos perante um adiamento dessa decisão. É que estas pessoas são também aquelas que, por prolongarem mais a dedicação aos estudos e a carreira académica, chegam mais tarde ao mercado de trabalho e à obtenção de um rendimento autonómo que possa levar à saída da casa dos pais e a dar o passo para a conjugalidade e para a decisão de ter filhos.

Teresa e Bernardo

22 e 24 anos Namorados
Para ter filhos mais cedo, a circunstância ideal era não ter uma formação académica tão extensa

Trabalhar mais é menos?

A conciliação do trabalho com a vida familiar é um dos temas dominantes nas sociedades actuais quando se fala de ter filhos ou fazer crescer a família. Sem surpresa, este é uma das condicionantes apontadas para não ter mais crianças.
Qual é a situação laboral ideal
Pai
Mãe

Trabalhar a tempo inteiro fora de casa

67%
64%
19%
18%

Trabalhar a tempo parcial fora de casa

23%
21%
38%
51%

Trabalhar a partir de casa

8%
4%
18%
14%

Não trabalhar

2%
1%
25%
17%
Respostas dadas por homens Respostas dadas por mulheres

Então, na perspectiva dos próprios, qual seria a situação laboral ideal para a mãe e para o pai?
Aqui não há uma “guerra de sexos”, ao contrário do que se poderia suspeitar. Tantos uns como outros defendem o “status quo” dos papéis tradicionalmente atribuídos a homens e mulheres: eles com mais responsabilidades profissionais e elas com mais empenho e tempo dedicados à família.


A preferência do maior número de pessoas vai para a seguinte combinação: a mãe deve, idealmente, trabalhar a tempo parcial fora de casa e o pai deve trabalhar a tempo inteiro fora de casa.

Comparando as respostas dadas por mulheres e por homens, verifica-se que são até elas quem mais prefere ter um regime laboral parcial, ficando com mais tempo para a família. No caso das mulheres, 51% defende esta opção, enquanto nos homens são 41% (os que já são pais) ou 35% (entre os que não têm filhos) os que acham que o ideal é a mãe trabalhar fora de casa apenas a tempo parcial.

Mais consensual ainda é a referência à situação preferencial para o pai: todos, mulheres e homens com e sem filhos, apontam que o ideal é ele trabalhar a tempo inteiro fora de casa com valores extremos de 60% (observado no conjunto de mulheres sem filhos) e os 68% (observado no conjunto dos homens com filhos).

Arraste para a esquerda

Ricardo

42 anos 1 filha e reconstituiu família
A presença em casa? Essa questão já não se pode colocar porque já nem os pais nem as mães estão em casa

Ester, Maria e Catarina

90, 69 e 43 anos Avó, mãe, filha
As crianças passam mais tempo na escola do que nós passamos nos nossos empregos

Andreia e David

28 anos 1 filha, querem ter mais
Eu diria a palavra liberdade para decidir de que forma é que eu faço as 8 horas de trabalho

Alexandra e Miguel

42 e 35 anos 4 filhos
Eu chegava à meia noite e de repente dei por mim a pensar que não conseguia deixar um bebé para voltar a trabalhar

Directamente relacionado com este está o tema do equilíbrio com a realização pessoal e profissional de cada um.
Os homens dão mais importância à parentalidade para a realização pessoal deles ou das mulheres. São 53% os que consideram que ter filhos é importante para que se sintam realizados(as). Quando a mesma pergunta é feita às mulheres, 46% consideram que a maternidade é um factor importante de realização pessoal para elas e 40% acha o mesmo em relação a eles.

A presença materna junto dos filhos em idade pré-escolar é mais valorizada (por 36% das mulheres e 46% dos homens) do que a presença do pai (defendida por 13% delas e 20% deles).

A concordância entre sexos também existe quando se conclui que “o desejo de uma carreira profissional e de uma vida pessoal e social activa influenciam a decisão das mulheres não terem filhos” e que “algumas mulheres adiam o nascimento do primeiro filho ou de um filho e acabam por desistir tendo em conta a sua idade”. Estas ideias merecem a concordância de um pouco mais de 80% das pessoas, independentemente de serem homens ou mulheres e do facto de terem ou não filhos.

E há mais. São cerca de 74% das mulheres e de 64% dos homens que concordam que “uma mãe que trabalha fora de casa pode ter uma relação com os seus filhos tão boa como uma mãe que trabalha em casa”. Já a afirmação “uma mulher pode criar um filho sozinha sem querer ter uma relação estável” merece a concordância de 78% das mulheres e de 71% dos homens.

Maria Filomena Mendes

Coordenadora do estudo “Determinantes da Fecundidade”

As pessoas acham que é importante ter menos filhos com mais oportunidades, do que mais filhos com mais restrições
Maria Filomena Mendes

As novas assimetrias portuguesas

A tendência para a quebra da natalidade e o aumento da idade a que se tem o primeiro filho verificou-se em todo o país, embora a ritmos diferenciados. As assimetrias regionais Norte-Sul marcaram historicamente a evolução da natalidade do país.
1.23
49%
< 1,00 1,00 - 1,49 1,50 - 1,99 >= 2,00
Dados a 2014

Ao Norte mais fecundo opunha-se um Sul com menores índices de nascimentos de crianças, padrões diferenciados frequentemente justificados pelas práticas tradicionais na posse das terras, transmissão na família e adesão às práticas religiosas.

A diluição das assimetrias regionais e o desenvolvimento social e económico trouxeram consigo, na última década do século XX, a diminuição da dicotomia Norte-Sul em relação à natalidade. Esta evolução no sentido da maior homogeneização deu-se, sobretudo, através da quebra mais acentuada dos níveis de natalidade nas regiões onde ela era mais elevada. A terciarização da economia, a crescente participação das mulheres no mercado de trabalho, o aumento da escolaridade, a menor influência das práticas católicas e a perca do valor económico das crianças são aspectos que ajudam a compreender essas mudanças de comportamentos face à fecundidade.

Paralelamente, desenharam-se ritmos de desenvolvimento e de urbanização diferenciados entre o Litoral e o Interior, emergindo um novo tipo de assimetrias. Este processo acentuou-se já no presente século e contrapõe o Interior Norte e Centro, menos fecundo, ao Litoral Sul, com índices mais elevados de natalidade.

A “fotografia” tirada com os dados de 2014, que ilustram os mapas que aqui apresentamos com dados concelhios, mostram isso mesmo. Finalmente um olhar para o nascimento de crianças fora do casamento, que aqui inclui os casos de parentalidade em união de facto e não apenas aqueles em que os pais não coabitam.

A histórica dicotomia entre Norte-Sul estava também claramente presente no comportamento em relação a este indicador mas tornou-se menos vincada na última década. Apesar da convergência de comportamentos, mantém-se, ainda assim, uma diferenciação de assinalar entre Norte e Sul, onde a generalidade dos concelhos apresenta um índice superior a 50% de filhos nascidos fora do casamento.

E se o casamento perdeu o seu papel muito decisivo como marca de entrada na parentalidade, actualmente a coabitação dos pais como condição prévia para se ter filhos também parece perder a relevância que outrora já teve. Os novos conceitos de família incluem também, de forma crescente, casais que, embora tendo uma relação, não partilham a mesma casa, independentemente de terem ou não filhos em comum.

Europa a duas velocidades também nos filhos

O declínio da fecundidade está longe de ser uma característica exclusivamente portuguesa. Com maior ou menor intensidade, a tendência atravessou toda a Europa. Contudo, actualmente, alguns países estancaram esse declínio dos níveis de fecundidade, outros abrandaram-no e outros mantiveram-no.
População
1960
1960 2014

Não há uma homogeneidade na Europa quando olhamos para o ponto em cada país se encontra hoje quando se fala de fecundidade.

É na Europa do Norte e Ocidental (Suécia, Dinamarca, Holanda, França, entre outros) que se registam os níveis médios mais elevados de filhos por mulher, nalguns casos acima de 1,8. No extremo oposto estão os países da Europa Sul (Chipre, Espanha, Grécia, Itália, Malta e Portugal), com um número médio de filhos por mulher abaixo dos 1,4. Desde 2008 que estes países apresentam os valores mais baixos deste indicador.

As mulheres não só têm em média menos filhos, como estão a retardar este projecto. Mas apesar da idade média de maternidade ter aumentado, a diferença entre as várias latitudes da Europa deixa de ser tão vincada.

Número médio de filhos por mulher vs. idade média de maternidade nos países europeus
Número médio de filhos por mulher
1960
Idade Média de Maternidade
1960 2014

Com baixíssimos níveis de fecundidade e idade média de maternidade mais tardia, Portugal parece não destoar significativamente dos restantes países do Sul da Europa. Porém, Portugal, no quadro da Europa do Sul, destoa em relação a certos comportamentos. É o caso da proporção de nascimentos fora do casamento. Neste indicador, Portugal alinha com o Norte da Europa. O valor de 49% registado em 2014 é semelhante ao que encontramos em países como a Holanda ou Dinamarca e está muito acima dos 8% ou 29% que se verificam na Grécia e Itália, pares geográficos do Sul da Europa.

A aproximação às práticas da Europa do Norte e Ocidental foi feita por Portugal nos últimos anos. No início da década de 90 do século passado já os países nórdicos apresentavam uma proporção de nascimentos fora do casamento próxima de 40%, contrastando com os 6% observados, em média, na Europa do Sul e com os 15% que eram medidos em Portugal. De então para cá, os portugueses aproximaram o seu padrão nesta matéria das práticas nórdicas a um ritmo muito mais acentuado do que Espanha, Itália ou Grécia.

Reportagens

O País dos Filhos Únicos

Debate
OS FILHOS SÃO BOA POLÍTICA?
Fecundidade e políticas públicas
Debate
MAIS VALE TARDE QUE NUNCA?
Parentalidades tardias e infecundidade
Debate
MENOS É MAIS?
Filho único
Debate
Quem manda ter filhos?
Homens e mulheres no momento da decisão

Esta obra digital é baseada no relatório Determinantes da fecundidade em Portugal

Esta obra digital é baseada no relatório Download Determinantes da fecundidade em Portugal